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Editora: 12min
A medicina sempre tratou o envelhecimento como pano de fundo: espera-se que o diabetes, a doença cardiovascular ou o câncer apareçam, e cada um é tratado separadamente. Nos últimos anos, um ramo da biotecnologia propôs inverter essa ordem e mirar o próprio processo biológico de envelhecer, com a aposta de que intervir nele preveniria várias doenças de uma vez.
A ideia já saiu do laboratório e chegou ao bolso de quem pode pagar: clínicas que cobram dezenas de milhares de dólares por ano, exames vendidos como medida de "idade biológica", infusões intravenosas, suplementos. É aí que mora a tensão deste momento, porque o mercado cresce mais rápido do que a evidência que deveria sustentá-lo.
No nível celular, pesquisadores hoje descrevem o envelhecimento a partir de doze processos interligados, chamados de marcas do envelhecimento, entre eles a instabilidade do genoma e a inflamação crônica. Já foram identificados genes que regulam esses processos. Manipulá-los em animais melhorou medidas de saúde e de função em bichos velhos e, em alguns casos, estendeu a vida deles de forma significativa.
O objetivo declarado desse campo, conhecido como biotecnologia da longevidade, é tratar os mecanismos biológicos por trás das doenças da idade para aumentar o tempo de vida com saúde (o chamado healthspan) ou o tempo de vida total. "Envelhecer tem biologia. Essa biologia causa doenças", disse à CNN Nir Barzilai, diretor do instituto de pesquisa sobre envelhecimento do Albert Einstein College of Medicine, em Nova York. Em vez de esperar as doenças surgirem, argumenta ele, a medicina poderia agir sobre os processos que contribuem para várias delas ao mesmo tempo.
Foi essa ambição que voltou à conversa pública quando um microfone aberto captou os presidentes da Rússia e da China discutindo se avanços em medicina e biotecnologia poderiam aproximar a humanidade da vida muito longa. Vladimir Putin falou sobre transplante de órgãos; Xi Jinping citou previsões de que humanos poderiam chegar aos 150 anos ainda neste século.
Só no primeiro trimestre de 2026, empresas de biotecnologia da longevidade levantaram cerca de US$ 3,74 bilhões. A revista Forbes chamou o setor de próxima grande aposta dos bilionários depois da inteligência artificial. Parte do entusiasmo vem da sensação geral de que a biologia está perto de novas descobertas, alimentada pelo sucesso comercial dos remédios contra obesidade, hoje entre os dez medicamentos mais vendidos do mundo.
Na ponta do consumidor, isso tomou a forma das clínicas de longevidade: há cerca de 800 nos Estados Unidos, segundo estimativa da American Academy of Anti-Aging Medicine feita em junho de 2024. Uma primeira sessão típica envolve exames de sangue e metabólicos, teste de VO2 máximo para medir condicionamento e um teste de "idade biológica", às vezes descrito como um score de crédito do corpo.
Os preços variam muito. Infusões intravenosas de vitaminas e minerais custam de US$ 150 a US$ 1.000 por sessão, segundo sites de algumas clínicas. Mensalidades anuais vão de US$ 8 mil, numa clínica com unidades na Califórnia, a US$ 250 mil num pacote de Nova York disponível apenas por convite, que pode incluir troca de plasma. O rosto público dessa cultura é o do empresário Bryan Johnson, que popularizou o lema "Don't Die" (não morra) e já recebeu infusões de plasma do próprio filho adolescente. Sua namorada, Kate Tolo, contou publicamente que acompanha os níveis de cortisol todos os dias e coleta amostras de sangue, urina e fezes.
É aqui que a conta não fecha. "A hipótese não foi testada em humanos", disse à CNN Daniel Belsky, professor associado de epidemiologia na Universidade Columbia. Em laboratório, intervenções como medicamentos, exercício e restrição calórica retardaram mudanças celulares associadas ao envelhecimento em organismos que vão de vermes a camundongos. "Para humanos, ainda não temos evidência de ensaio clínico de que intervir nessa biologia para estender o tempo de vida saudável seja possível", afirmou. O que mudou, segundo ele, é que há agora recursos mobilizados para de fato testar.
O obstáculo é o relógio. Um ensaio que quisesse saber se uma intervenção tomada aos 40 ou 50 anos previne doença crônica talvez precisasse acompanhar os participantes por duas ou três décadas. Por isso pesquisadores tentam descobrir se biomarcadores do envelhecimento podem servir de atalho confiável, prevendo o desfecho antes que ele aconteça. Belsky é explícito: a ligação entre mexer nesses marcadores e efetivamente estender a vida saudável ainda não foi estabelecida.
A regulação acompanha esse limite. A FDA, agência que regula medicamentos nos Estados Unidos, não trata o envelhecimento em si como alvo de doença, o que obriga as empresas a demonstrar benefício contra doenças específicas ou aspectos mensuráveis de saúde. Em outubro de 2024, o Departamento de Saúde de Abu Dhabi criou um marco de licenciamento para centros de medicina da longevidade, que descreveu como o primeiro do tipo no mundo.
Há também a questão dos efeitos colaterais, ainda desconhecidos porque os ensaios estão em estágio inicial. Décadas de pesquisa clínica mostram que mexer em um aspecto do corpo costuma gerar efeito indesejado em outro: antibióticos alteram o microbioma, a quimioterapia mata células saudáveis de divisão rápida. Uma das linhas da biotecnologia da longevidade tenta manipular o reparo do DNA, mas células produtoras de anticorpos introduzem mutações no próprio DNA de propósito, e não se sabe como elas reagiriam.
Sobre serviços já vendidos, parte dos médicos é direta. "Não há realmente biologia por trás disso", disse à CNBC a médica Andrea Maier, diretora de uma academia de longevidade saudável da Universidade Nacional de Singapura, referindo-se às infusões de NAD+. Matthew Davenport, radiologista da escola de medicina da Universidade de Michigan, afirmou à mesma reportagem que ressonâncias de corpo inteiro feitas sem necessidade médica "em muitos casos levam a dano depois, mesmo quando você pensa estar ajudando o paciente", porque um achado inofensivo costuma desencadear consultas, exames, endoscopias ou cirurgias.
Por trás da corrida biotecnológica existe um mercado que já se movimenta sem nenhuma promessa de reverter idade biológica. Em 2026, pessoas com 60 anos ou mais respondem por 27% dos gastos de consumo no mundo, cerca de US$ 19 trilhões, segundo levantamento conjunto do World Data Lab, da NielsenIQ e da Silver Economy. Os segmentos específicos dessa economia prateada movimentam cerca de US$ 4,5 trilhões.
A parte mais concreta dela é bem menos glamourosa: a Organização Mundial da Saúde estima que 2,5 bilhões de pessoas precisem de pelo menos um produto de tecnologia assistiva, como cadeiras de rodas, andadores ou muletas, número que pode superar 3,5 bilhões até 2050. Para a entidade, o custo é uma das principais barreiras globais de acesso a esses produtos.
"A coisa que sabemos que funciona está disponível, de alguma forma, para a maioria de nós", disse Belsky à CNN, citando sono, exercício, convívio e alimentação. "São coisas em que quase todos nós podemos progredir. Podemos somar anos saudáveis à vida mesmo sem esses novos medicamentos." Maier faz a mesma recomendação em outra chave: comece pelo básico, porque é ali que está o melhor retorno do investimento.
Nessa lista entra até a companhia de um animal. Pesquisa publicada pela American Heart Association na revista Circulation associa ter um cachorro a uma redução de 24% na mortalidade por todas as causas, e de até 33% entre pessoas que já tiveram infarto ou AVC. Estudos publicados na BMC Public Health indicam que donos de cães caminham em média 22 minutos a mais por dia. Dan Buettner, fundador da organização Blue Zones, resumiu assim em um episódio recente de seu podcast: o cachorro obriga a caminhar todo dia, dá propósito e combate a solidão, que os Estados Unidos já declararam epidemia nacional de saúde pública, com risco comparado ao de fumar 15 cigarros por dia.
Antes de pagar por uma infusão, uma ressonância de corpo inteiro ou uma mensalidade de clínica sem indicação médica, a pergunta útil não é "isso rejuvenesce?", e sim qual evidência clínica existe para aquela intervenção específica, naquele desfecho específico. A ausência de reconhecimento do envelhecimento como doença tratável por parte do regulador americano não é detalhe burocrático: é o que ainda impede que qualquer produto seja aprovado como tratamento do envelhecimento em si.
Vale também checar o que o plano de saúde cobre. Exames de sangue para saúde metabólica, hormonal ou inflamação nem sempre são cobertos sem necessidade médica, segundo Maier, e um único teste em algumas clínicas pode chegar a US$ 800. Sanjiv Lal, executivo de uma plataforma de medicina regenerativa, disse à CNBC que o maior desperdício nesse campo é tentar coisas sem medi-las e sem saber o que se está tentando fazer.
Enquanto os ensaios de longo prazo não existirem, o que está ao alcance de quase todo mundo continua sendo sono, exercício, alimentação e convívio. E o que vale acompanhar daqui para frente são dois sinais concretos: os primeiros resultados de testes em humanos e eventuais mudanças regulatórias que separem o que já é ciência validada do que ainda é aposta.
Dos gastos que você faz ou pensa em fazer com a própria saúde, quais sobreviveriam à pergunta que os pesquisadores ainda não conseguem responder: isso já foi testado em pessoas?
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